Domingo, Julho 03, 2005


'Welcome to the greatest rock concert in the world'

Assim começava o Live8, o maior concerto humanitário da História, com concertos espalhados pelo Reino Unido (Londres - Hyde Park e Cornualha - Eden Arena), Escócia (Edimburgo - Estádio Murrayfield), França (Paris - Palácio de Versailhes), Rússia (Moscovo-Praça Vermelha), Canadá (Barrie - Park Place), Itália (Roma-Circo Máximo), Japão (Tóquio-Makuahri Messe), Alemanha (Berlin - Porta de Bradenburgo), EUA (Filadélfia-Museu de Arte) e África do Sul (Joanesburgo-Praça Mary Fitzgerald), numa emissão televisiva sem precedentes que foi mostrando os vários concertos nos vários cantos do planeta ao vivo ou com delay de apenas alguns minutos, numa maratona musical que durou desde as 14h00 da tarde até cerca da 00h30 da noite.

Infelizmente, vivo em Portugal, o que quer dizer que tive de me contentar com a transmissão da RTP, que tinha o exclusivo nacional, numa acção conjunta com a Antena 3. Ora, miseravelmente, parecia que mais importante que os concertos a transmitir eram os comentários insípidos, aborrecidos e resumidamente descabidos dos apresentadores Pedro Ribeiro (até geralmente tens alguma graça Pedro mas não sei o que se te deu na cabeça para te prestares a tal papel aí) e a Margarida Pinto Correia!!! Então digam lá se não era o primeiro nome em quem pensariam para apresentar um evento destes... não? Mas esteve lá o mariducho Luís Represas para falar de como se poderia sentir um músico num evento daqueles... coisa que o próprio não sabe porque nunca esteve em nada remotamente parecido nem nunca estará, provavelmente.
E assim enquanto por exemplo uns Velvet Revolver tocavam, ouvíamos e viamos as opiniões do Dr. Padre Melícias sobre o destino do mundo. Claro que estes são assuntos interessantes e válidos, mas não quando tocam bandas internacionais de peso no Live8!!! E depois as reportagens sobre os bastidores das transmissões... como se fossem mais importantes os jornalistas, o seu mundo, o seu trabalho, do que os músicos, as músicas e os concertos do Live8.
RTP, oiçam-me: tinham uma coisa boa, que valia por si: a transmissão exclusiva, não precisavam de tentar embelezar ainda mais a coisa, exagerando, tentando apostar em vários caminhos ao mesmo tempo e acabando com nem uma coisa nem outra, como uma árvore de natal que de tão decorada se torna extramente pirosa. Enfim, é o país que se tem e pronto... mas tinha de desabafar.
Valeu-nos a transmissão integral e muito mais abstencionista de comentários da Antena3 e a excelente transmissão ao vivo da aol, com opção de escolha de concertos por cidade... muito bom! A Antena3 disponibilizou ainda um blog dedicado exclusivamente à sua emissão do Live8 (http://www.live8antena3.blogspot.com) onde muito inteligentemente decidiram remeter os seus comentários e notícias, não se sobrepondo assim aos concertos ao vivo passados na rádio. Único reparo: não consegui uma única vez postar um comentário, apesar de ter tentado várias vezes... eram sempre os mesmos. Estranho, coincidência, censura ou reservado a amigos e habitués? Fiquei sem perceber.
Bom, mas desabafos aparte, vamos ao que interessa: os concertos!!!

O melhor alinhamento era, certamente, e sem surpresas, o de Londres. Grandes nomes como os U2, Paul McCartney, Madonna, Elton John, Coldplay, Robbie Williams, Sting, Dido, Annie Lennox, Mariah Carey (blargh - atitude de diva dispensável) UB40 e os imortais Pink Floyd. E ainda os "lovely" REM, Keane, Joss Stone, The Killers, Snoop Dog, Scissor Sisters, Snow Patrol, Stereophonics, Travis, Velvet Revolver, Razorlight, a desconhecida entre nós Ms Dynamite e of course, Mr. Bob Geldof himself, que desta vez desafinou muito menos...

A grande Bjork ficou em Tóquio, que ficou a meio gás em termos de afluência e soube a pouco... Outras bandas de menor importância e visibilidade entre nós, com excepção dos americanos Good Charlotte, preencheram o resto do cartaz japonês, sem motivos de destaque.
Em Roma, sobretudo italianos mas também (e ainda bem) uns impecáveis Duran Duran ainda muito cool que me recuaram aos belos e saudosos anos 80... don't save a prayer for me now... save it for the morning after...

Em Paris, destacavam-se no meio de um cartaz também recheado de talentos locais, os grandes The Cure, Muse, Placebo, Manu Chao e Jamiroquai, cujas actuações não tive oportunidade de ver... obrigado RTP.

Em Toronto, esperava ver as actuações dos Motley Crue e Deep Purple, mas só consegui espreitar o final dos Motley Crue que estavam em grande forma.

Em Moscovo, destaque apenas para uns Pet Shop Boys muito bem contextualizados, com o seu refrão "Go West" que ecuou de forma hilariantemente irónica na Praça Vermelha... é o sabor dos tempos e da aldeia global...

Em Berlim, destaque para os saudosos A-Ha, ainda muito fresquinhos e joviais (parece ontem) que me levaram de novo back to the memory lane... oh 80's where art thou? Destaque merecido também para os poderosos Audioslave, que rularam completamente e para uns Green Day muito interventivos politicamente com o seu "don't take their fucking bullshit" num piscar de olho cheio de rímel para os 8 senhores do G.

Nos EUA, um Will Smith inesperadamente poltizado abriu as hostilidades, com um longo discurso sobre esta causa e a motivação deste mega evento, o que não impediu que chegasse num trono carregado por dançarinos barra serviçais para estrear-se ele próprio nas apresentações musicais. Os concertos de Filadélfia tiveram muito mais presentes o Rn'B, o Hip Hop e o Soul, com nomes como P Diddy, Stevie Wonder, 50 Cents e Destiny's Child. Infelizmente não consegui ver os Dave Mathews Band, os Maroon5 nem os Keiser Chiefs, que são os que, a meu ver, se destacavam no alinhamento, mas ainda consegui espreitar os Linkin Park que contaram com a colaboração de Jaz Z numa das suas músicas.
E chegamos finalmente ao melhor da festa: ao Uk e arredores, of course.

Na Cornualha, encontravam-se artistas sobretudo da world music e especificamente de raízes ou influências africanas. A nossa Mariza nem vê-la nos ecrãs da RTP, mas para que é que serve o tão badalado serviço público se não para isso? Falhou-me ainda - e oh, dor imensa - o magnífico, seminal Peter Gabriel - falta imperdoável à estação pública!

Finalmente, o melhor da festa (eu disse-o logo no ínício) foi mesmo em Hyde Park... Por onde começar? Bem, perdi os Keane, os The Killers - falta imperdoável, mais uma vez. Mas vi os sensaborões Coldplay - que trouxeram em atrelado uma Gwyneth Paltrow de óculos escuros e de bébé ao colo na plateia; a adocicada Mariah Carey que teve ataques de diva, ao pedir que a massagista lhe trouxesse água e Dido e Youssou n'Dour numa dupla insuspeita, mas que até resultou.
Mas também vi os adoráveis Travis - why does it always rain on me? - com as suas músicas agridoces suaves que soube tão bem (re)ouvir; a grande Annie Lennox - sweet dreams are indeed made of this...; the soul girl Joss Stone, poderosa vocalmente mas pouco entusiasmante na lide com o público e os Snow Patrol, very brit pop/rock. E felizmente vi também Snoop Dog, fantástico no seu estilo (Ricky Gervais a dançar na plateia ao som de Snoop - eis uma imagem que não se vê todos os dias); os fantásticos Scissor Sisters, muito entusiasmados e dançantes; o clássico Mr. Sting himself, sempre maravilhoso; os poderosos e rockeiros Velvet Revolver (cujo concerto só espreitei o fim); uns Stereophonics surpreendentemente entusiasmantes e bastante rockeiros (casaco de cabedal para todos); o Sir Paul McCartney, bastante comunicativo;

Last but not least, destaque ainda maior para os grande grande REM (adorei a maquilhagem azul drástica, dear Stipe, it suits you ;P) os U2 (que abriram com Sir Paul McCartney) e claro, os regressados Pink Floyd depois de um hiato de 24 anos, que voltaram a reunir-se na sua totalidade, e fizeram história, emocionada, por todo o mundo. Ainda grandes surpresas pela positiva: Robbie Williams e Madonna, que, apesar de não serem dos meus músicos preferidos, tiveram uma actuação fora de série, arrebatora, agarrando o público e dando ao Live8 outros dois momentos fortes desta edição (sobretudo Williams com o seu Angels - ok, confesso que cantei). Outros momentos especiais: Richard Ashcroft a juntar-se aos Coldplay para cantar a sua "Bittersweet Simphony" e George Michael e Paul McCartney.
E um grande final com uma rendition de Hey Jude com vários músicos no palco.
Faltaram-me com certeza muitos nomes... mas o resto é história...